Quem monta a mala de uma viagem espírita costuma separar um ou dois livros para levar. A pergunta que mais ouvimos é qual. A resposta que damos é que depende do lugar em que você vai estar de pé. Um livro lido uma semana antes de entrar num museu ou numa sala de estudo muda o que os olhos pegam ali.

André Luiz, por si só, já daria uma biblioteca, e dedicamos a ele um texto à parte, sobre a série em ordem de publicação. Aqui vamos para o resto da estante: um livro de poemas, dois romances de Emmanuel e a leitura das vidas de Chico Xavier e de Eurípedes Barsanulfo. Para cada um, dizemos o que acrescenta a cada parada do roteiro.

Diante do retrato de Chico Xavier, na caravana a Minas Gerais de abril de 2024

Diante do retrato de Chico Xavier, na caravana a Minas Gerais de abril de 2024. Acervo de viagens da Mundo a Passeio.

Parnaso de Além-Túmulo: onde tudo começa

A FEB apresenta Parnaso de Além-Túmulo como a primeira obra psicografada por Chico Xavier, o marco do início da mediunidade que o acompanharia pela vida inteira. São mais de duzentos poemas atribuídos a 56 poetas brasileiros e portugueses, com versos de consolo e esperança sobre a sobrevivência da alma. A data que se cita é 1932.

Por que ler antes de ir? Porque o livro mostra o começo da mediunidade de Chico, antes da fase dos grandes romances de Emmanuel e de André Luiz. Muita gente que já leu Emmanuel e André Luiz nunca abriu o Parnaso, e isso é uma lacuna. Quando você estiver em Pedro Leopoldo, diante da estátua na praça, o livro dá uma linha do tempo emocional, porque é ali que a história pública de Chico começa a ser contada. Veja também o que escrevemos sobre Pedro Leopoldo, terra de Chico Xavier.

Uma sugestão de leitura: não leia o Parnaso de ponta a ponta. Escolha dez ou doze poemas, leia em voz alta, e anote o que cada um diz sobre a vida depois da morte. O estilo é de época e cansa quando lido de uma vez.

Emmanuel: Há Dois Mil Anos e Paulo e Estêvão

Emmanuel é o espírito que, segundo a FEB, assina grande parte das obras de Chico. Dois de seus romances históricos ajudam muito a quem vai a Minas, e não pelo cenário, que é Palestina e Roma, mas pelo tema: o cristianismo nascente e a conversão como processo.

Há Dois Mil Anos (fim dos anos 1930) conta, pela ficha da FEB, a vida de Públio Lentulus, senador romano nomeado para um alto posto na Palestina no tempo em que Jesus ensinava. A família de Lentulus vive extremos de sofrimento e alegria, poder e servidão, e a esposa, Lívia, se converte ao ensino de Jesus contra a vontade do marido. O que o livro acrescenta, para o viajante, é uma lição sobre orgulho e conversão que se encaixa bem em Sacramento: lá, a história de Eurípedes Barsanulfo é a de um homem que uniu fé espírita, escola e atendimento gratuito, e o romance ajuda a pensar o que é sustentar uma convicção diante de quem discorda.

Paulo e Estêvão (início dos anos 1940), com 512 páginas na edição atual da FEB, acompanha Paulo de Tarso, ex-fariseu perseguidor que se converte, sua ligação com Estêvão, o primeiro mártir, e seu amor por Abigail. A editora destaca a mensagem central: o amor cobre muitas faltas cometidas ao longo de várias vidas. Para o viajante, o livro pede paciência, porque é longo, e rende perguntas para as conversas na estrada: o que significa servir quando se perde o prestígio? E quem em nossa história foi Estêvão para nós?

Se o seu tempo é curto, comece por Há Dois Mil Anos, cujo enredo familiar e a conversão de Lívia são fáceis de acompanhar. Se o tempo não for problema, Paulo e Estêvão, com suas 512 páginas, é boa companhia para as horas de estrada.

Biografias de Chico Xavier

Para a vida de Chico, existem leituras com propósitos diferentes. As Vidas de Chico Xavier, de Marcel Souto Maior, é uma biografia jornalística, publicada em edição atualizada pela Planeta em 2003. É a porta de entrada mais lida para quem quer um panorama. Tem tom de reportagem, e vale ler sabendo disso: é um olhar biográfico, que não substitui os estudos doutrinários.

Do lado das publicações espíritas, a FEB tem Depoimentos sobre Chico Xavier, coletânea de testemunhos de familiares e de trabalhadores espíritas de longa data em Pedro Leopoldo e Uberaba, e Trinta anos com Chico Xavier, de Clovis Tavares, memória de quem conviveu com ele de 1936 a 1966. São livros de afeto. Não pretendem a distância de um biógrafo, e é justamente isso que os torna valiosos antes de visitar a Casa de Memórias e o Memorial.

Como cada livro acrescenta ao roteiro: o de Souto Maior ajuda a situar datas e contexto; os de testemunho dão o olhar de perto que torna a visita à casa de Uberaba mais pessoal. Nosso guia sobre Chico Xavier em Uberaba cuida do lado prático.

Eurípedes Barsanulfo

Aqui a bibliografia é mais enxuta, e vale conhecer o nome de Corina Novelino. Sua obra Eurípedes, o Homem e a Missão é apontada em referências bibliográficas como biografia escrita às vésperas do centenário de nascimento de Eurípedes, em 1979, e é citada como base de outras biografias. Há ainda um estudo acadêmico da UFU sobre o espiritismo e a educação em Eurípedes, que é leitura para quem gosta de ver o personagem num contexto histórico, e também livros de outros autores, como Jorge Rizzini, entre as referências listadas.

Se você só tiver tempo para uma leitura, prefira uma biografia curta e confiável antes da viagem, e deixe as demais para depois, quando as imagens do Colégio Allan Kardec já estiverem na memória. Veja o que já escrevemos em quem foi Eurípedes Barsanulfo e na história do Colégio Allan Kardec.

Como ler sem transformar a leitura em tarefa

Uma dica que serve para qualquer um desses livros: antes de abrir, escreva em duas linhas o que você espera encontrar. Quando terminar, volte à anotação. A diferença entre o esperado e o encontrado é a parte mais interessante do estudo, e costuma render conversa boa quando o grupo se reúne.

Outra: leia pelo menos um trecho em voz alta para alguém da família ou do grupo. Os romances de Emmanuel têm linguagem de época e, para muita gente, rendem mais quando lidos em voz alta. E, se o grupo vai viajar junto, combine antes quem lê o quê. Dividir as leituras permite que, nas paradas e nos trechos de ônibus, cada pessoa conte aos outros o que descobriu, e a viagem fica mais rica do que se todos tivessem lido o mesmo.

Kardec ainda é o ponto de apoio

Nenhuma das leituras acima substitui Allan Kardec. Se for visitar casas, reuniões e lugares de estudo, o capítulo de O Livro dos Médiuns que conversa com o que você viu será sua bússola. Para uma revisão, o nosso artigo sobre mediunidade segundo O Livro dos Médiuns ajuda, e o de como se comportar numa casa espírita evita gafes.

Um plano de leitura realista

Uma proposta simples, para quem tem de quatro a seis semanas: uma semana de Parnaso de Além-Túmulo, em pequenas doses; duas semanas de Há Dois Mil Anos ou Paulo e Estêvão; uma semana para uma biografia de Chico; uma para o que houver sobre Eurípedes. Se sobrar tempo, um André Luiz que combine com sua prática. Se faltar, escolha uma leitura só e faça bem.

Uma outra boa ideia é levar um caderno e anotar, em cada parada, uma frase do livro que o lugar fez voltar à mente. Na volta, essas frases viram um estudo.

Estar nos lugares com a leitura na cabeça

Quem leu antes costuma contar que o lugar fala de modo diferente. O silêncio de uma sala, a calma de uma casa, a sensação de serenidade de que tantos visitantes falam, e que muitos espíritas entendem como a energia do ambiente moldado por prece e trabalho, ganham sentido quando você tem alguma história na cabeça. Tudo isso é percepção, e quem for pode sentir outra coisa.

Para ver o roteiro, acesse Minas Espírita e Saindo de Porto Alegre: caravana espírita. Se quiser falar da próxima saída, chame a gente no WhatsApp.

Fontes e consulta

Consultadas em 30/10/2026: FEB Editora, fichas de Parnaso de Além-Túmulo, Há Dois Mil Anos, Paulo e Estêvão, Depoimentos sobre Chico Xavier e Trinta anos com Chico Xavier; Jornal de Brasília sobre As Vidas de Chico Xavier; repositório da UFU. Anos de publicação são os das listas bibliográficas usuais e a FEB não os informa nas fichas.